EFICIÊNCIA

Eficiência não é reduzir pessoas. É redesenhar o processo.

Por que a agenda de eficiência precisa começar pelo processo e não pelo headcount ?

Em um ambiente de pressão por produtividade, transformação digital e maior contribuição para o negócio, RH precisa entregar mais valor com modelos operacionais cada vez mais enxutos. Portanto, o tema eficiência voltou ao centro das discussões executivas.

Existe, porém, uma diferença importante entre reduzir custo e construir eficiência. A primeira se obtém cortando recursos por meio de programas de desligamento. A segunda exige uma investigação minuciosa da operação para responder se os processos da empresa estão desenhados da melhor forma possível. É esse diagnóstico, aliás, que orienta o ponto de partida de qualquer transformação bem-sucedida.

A distinção importa porque uma operação pode ter menos pessoas e continuar ineficiente com mais retrabalho, mais escalonamentos, pior experiência para o cliente e maior dependência de atividades manuais. Eficiência sustentável não começa no headcount. Começa no detalhamento dos processos.

O custo é visível. A complexidade, nem sempre.

Quando uma operação apresenta custos elevados, o headcount costuma ser a primeira variável analisada; é compreensível, já que pessoas representam parcela relevante do custo e sua redução produz impacto financeiro rápido. Entretanto, o custo de uma operação também é determinado pela complexidade dos processos que a sustentam: a quantidade de etapas em cada processo, o número de aprovações e sistemas envolvidos, o volume de exceções e retrabalho, as atividades duplicadas e o quanto da operação ainda é manual.

A literatura sobre HR Shared Services confirma essa separação: o valor criado por esses modelos depende das capacidades disponíveis, dos serviços oferecidos e da configuração organizacional, não da simples existência de um centro compartilhado (Maatman, Bondarouk & Looise, 2010). Reduzir capacidade sem redesenhar o trabalho tende a transferir o custo para outro ponto do sistema: mais backlog, mais tempo de atendimento, mais escalonamento. Nesses casos, houve corte de custo, mas não ganho de eficiência.

O objeto real da eficiência é o processo

Antes de redesenhar uma estrutura, é preciso entender o que de fato está sendo feito: que atividades existem? por que precisam existir? como são realizadas? quem deveria realizá-las? e qual valor cada uma produz para o colaborador, o gestor e o negócio?

Só depois dessas respostas é possível decidir o que deve ser eliminado, simplificado, padronizado, centralizado ou automatizado, nessa ordem. Essa sequência muda a natureza da conversa: ela deixa de ser qual estrutura podemos suportar? e passa a ser "qual modelo operacional precisamos para entregar o resultado?"

O Operating Model conecta as decisões

Uma operação é consequência de escolhas interdependentes: processos, tecnologia, estrutura, governança, capacidades e métricas e por isso a eficiência não pode ser analisada isoladamente. Um processo pode estar digitalizado e continuar complexo; um CSC pode estar centralizado e ainda receber demandas que deveriam ser resolvidas na origem; uma estrutura pode estar enxuta e, mesmo assim, gerar excesso de retrabalho.

Essa discussão ganha nova dimensão com a inteligência artificial. Em 2026, a PwC passou a tratar a adoção de IA em RH como uma escolha de operating model: à medida que a execução rotineira se torna mais autônoma, a capacidade humana precisa migrar para decisões de maior impacto (PwC, 2026). A questão deixa de ser como podemos usar IA e passa a ser como o trabalho de RH deve ser redesenhado quando a IA passa a fazer parte da execução.

Essa evolução é particularmente relevante para os Centros de Serviços Compartilhados. Em estudo com 91 unidades de negócio de 19 organizações, Meijerink, Bondarouk e Looise (2017) encontraram relação direta entre as capacidades operacionais e dinâmicas de um CSC e o valor percebido dos serviços entregues, o que sugere que um CSC não deveria ser apenas o destino para onde a atividade foi transferida, mas uma capacidade operacional desenhada para entregar melhor. Não à toa, a Gartner recomendou em 2026 que os HR Shared Service Centers evoluam para estruturas de Digital Solutions and Delivery, à medida que a IA absorve atividades transacionais e redesenha workflows (Gartner, 2026).

Tecnologia não corrige um processo mal desenhado

Uma das armadilhas mais comuns da agenda de transformação é encontrar um processo ruim e automatizá-lo. A automação reduz esforço e tempo, mas se o processo tem etapas desnecessárias ou regras mal definidas, ela apenas acelera a complexidade existente.

A pergunta certa segue uma ordem: a atividade precisa existir? Se sim, pode ser simplificada, depois padronizada e só então automatizada. A Gartner projeta que, até 2030, metade das atividades hoje realizadas em RH poderão ser automatizadas por IA ou executadas por agentes de IA. Mas a própria Gartner alerta que o retorno desses investimentos depende da transformação do operating model, não apenas da adoção de ferramentas (Gartner, 2026). A tecnologia pode transformar o processo; primeiro, porém, é preciso decidir que processos se quer ter.

Isso também muda o papel das pessoas. Elas não deveriam ser tratadas apenas como variável de custo, mas como capacidade organizacional. À medida que as atividades transacionais são eliminadas ou automatizadas, ganham importância atividades como análise, gestão de exceções, relacionamento com o negócio e desenho de serviços. Eficiência, portanto, não significa necessariamente menos pessoas, mas menos atividades transacionais e mais atividades de valor. Essa é uma diferença fundamental.

A perspectiva Ebony

Eficiência não começa na estrutura. Começa no processo.

Antes de reduzir posições, é preciso compreender os processos que elas realizam. Antes de automatizar, é preciso questionar se o processo deveria existir daquela forma. Antes de redesenhar um CSC, é preciso definir o serviço que ele deverá entregar. Antes de medir eficiência pelo número de pessoas, é preciso definir qual valor a operação precisa produzir.

É essa mudança de perspectiva que transforma eficiência de uma agenda de corte de custos em uma agenda de desenho, capacidade e criação de valor. Uma operação eficiente não é aquela que simplesmente custa menos. É aquela que entrega melhor, com menos complexidade e mais valor para o negócio.

Referências

Maatman, M., Bondarouk, T., & Looise, J. C. (2010). Conceptualising the capabilities and value creation of HRM shared service models. Human Resource Management Review, 20(4), 327–339.
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Meijerink, J. G., Bondarouk, T., & Looise, J. C. (2013). Value creation through HR shared services: Towards a conceptual framework. Personnel Review, 42(1), 83–104.
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Meijerink, J., Bondarouk, T., & Looise, J. K. (2017). Why sharing is synergy: The role of decentralized control mechanisms and centralized HR capabilities in creating HR shared service value. Personnel Review, 46(7), 1297–1317.
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Gartner. (2026). Redefine HR SSC as Digital Solutions and Delivery Teams in the AI-Infused HR Operating Model. 29 de maio de 2026.

Gartner. (2026). Build an HR Operating Model That Succeeds in the AI Era. 26 de março de 2026.

PwC. (2026). HR's AI Wake-Up Call Is an Operating Model Choice. 13 de agosto de 2026.

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