SHARED SERVICES

O futuro do CSC não será um CSC mais barato

De centro transacional a capacidade estratégica de Service Delivery

Durante décadas, o argumento econômico esteve no centro da criação dos Centros de Serviços Compartilhados: centralizar atividades, padronizar processos, ganhar escala, eliminar duplicidades e reduzir custos. A lógica continua válida, mas já não é suficiente.

O CSC está entrando em uma nova fase. Automação, inteligência artificial, gestão de dados, novas expectativas de serviço e a pressão por eficiência estão alterando não apenas como a tarefa é executada, mas também qual deve ser o papel de um Shared Service Center dentro da organização.

A pergunta, portanto, começa a mudar. Não é mais apenas como fazer o CSC custar menos. É como transformar o CSC em uma capacidade de serviço capaz de entregar mais valor ao negócio. A mudança parece sutil, mas na prática representa uma mudança de paradigma.

O CSC nasceu para criar escala. Agora precisa criar valor.

O modelo de Shared Services surgiu como resposta à fragmentação das funções corporativas. Em vez de diferentes unidades realizarem atividades semelhantes de forma independente, determinadas capacidades poderiam ser consolidadas, criando escala, padronização e especialização. Em RH, isso significou centralizar atividades como administração de pessoal, folha, benefícios e atendimento a colaboradores e gestores. A lógica era simples: menos duplicidade, maior escala, maior padronização, mais eficiência. E funcionou.

O problema começa quando eficiência passa a ser confundida com redução de custo. Nesse momento, o CSC pode entrar em um ciclo permanente de reduzir custo, reduzir estrutura, aumentar produtividade, pressionar capacidade e buscar nova redução. A operação pode ficar menor, mas isso não significa necessariamente que tenha ficado melhor.

Existe uma diferença importante entre ter custo como uma dimensão de desempenho e ter custo como a definição de valor. Um CSC precisa controlar custos, mas seu valor não deveria ser determinado apenas pelo quanto custa. A própria Deloitte identifica essa mudança na natureza dos modelos de Global Business Services: as organizações estão ampliando a proposta de valor desses modelos para incorporar capacidades de próxima geração, experiência do cliente, digitalização e transformação. Na pesquisa de 2025, mais de 50% das organizações consultadas colocaram o desenvolvimento de capacidades de próxima geração e a experiência do cliente entre suas prioridades para os próximos três anos (Deloitte, 2025). Custo continua importante, mas, sozinho, está deixando de ser uma proposta de valor suficiente.

De um lugar centralizado a uma capacidade de serviço

Um CSC tradicional pode ser descrito como o lugar onde determinadas atividades foram centralizadas, mas essa definição começa a ficar pequena. Um CSC mais maduro deveria ser entendido como uma capacidade organizacional desenhada para entregar serviços de forma eficiente, consistente, escalável e continuamente melhor.

A diferença está no foco. No primeiro modelo, a pergunta é o que podemos centralizar? No segundo, é que capacidade de serviço precisamos construir? Essa mudança aproxima o CSC de uma lógica de Service Delivery e muda o que precisa ser gerenciado: não basta acompanhar volume processado, custo, produtividade e SLA. É preciso olhar para qualidade da entrega, experiência do cliente, velocidade de resolução de problemas, automação, gestão de dados, capacidade produtiva e oportunidade de evolução.

Uma pesquisa da LACE Partners, com líderes de HR Shared Services de 34 organizações globais, mostra exatamente essa transição: a experiência passou a ocupar espaço equivalente à eficiência na agenda de HR Shared Services, ainda que a adoção de IA na função siga em estágio inicial, com cerca de 29% das organizações já utilizando a tecnologia e pouco mais de um terço em fase de piloto (LACE Partners, 2024). O relatório também chama atenção para a necessidade de definir com clareza a proposta de valor do HR Shared Services e de construir um workforce plan que considere as competências necessárias nos próximos dois a três anos. O CSC já não está sendo pressionado apenas a fazer mais barato. Está sendo pressionado a fazer melhor, de forma mais simples, mais digital e com maior valor percebido.

De transação para serviço

O CSC tradicional foi construído em torno da transação: receber uma solicitação, processar, responder e encerrar. Mas Service Delivery é maior do que processamento. É preciso compreender a jornada completa: demanda, entrada, processo, resolução, experiência, dado e melhoria.

Essa visão permite fazer perguntas que o modelo puramente transacional não consegue responder. Se determinado tipo de chamado aparece milhares de vezes, por que ele continua existindo? Se uma etapa exige intervenção manual em grande escala, essa etapa ainda precisa existir? Se uma solicitação é frequentemente escalada, o problema está na capacidade da equipe ou no desenho do processo? Se o usuário precisa entrar em contato várias vezes, estamos medindo tempo de resposta ou resolução?

Esse é o salto de maturidade de processar demanda para redesenhar demanda.

O indicador também precisa evoluir

Essa transformação exige uma mudança na maneira de medir o CSC. Em junho de 2024, a Gartner publicou uma orientação específica para HR Shared Services defendendo a evolução das métricas: sair de indicadores predominantemente reativos de atendimento e avançar para métricas capazes de demonstrar valor estratégico para o negócio (Gartner, 2024).

Isso não significa abandonar indicadores tradicionais. Custo, volume, produtividade e SLA continuam importantes, mas precisam coexistir com outras perguntas: quanto custa entregar (eficiência); quão corretamente entregamos (qualidade); como o usuário percebe o serviço (experiência); o problema foi efetivamente solucionado (resolução); quanto trabalho manual pode ser eliminado (automação); a operação consegue absorver novas demandas (capacidade); o serviço melhora continuamente (evolução).

O resultado é uma mudança de perspectiva: o desempenho do CSC não deveria ser medido apenas pela quantidade de trabalho processado, mas pelo valor produzido pela capacidade de serviço.

Tecnologia, IA e o papel das pessoas

A transformação digital acelera essa mudança, mas o ponto não é simplesmente colocar mais tecnologia dentro do CSC. É redesenhar a forma como o serviço é produzido. A Deloitte descreve essa evolução com clareza: HR Operations está deixando de atuar exclusivamente como um "transaction and inquiry service provider" para assumir um papel de geração de valor para o negócio, ampliando seu escopo para além do conceito tradicional de Shared Services e incorporando soluções integradas, experiência e tecnologias digitais. O CSC deixa de ser apenas uma estrutura para processar transações e passa a ser uma plataforma de Service Delivery, que combina processos, tecnologia, dados, automação, expertise e governança.

A inteligência artificial adiciona uma variável nova a essa equação. Se uma parte relevante do trabalho transacional pode ser automatizada, qual passa a ser a razão de existência do CSC? Não é mais simplesmente processar volume. É construir capacidade para desenhar soluções, administrar exceções, governar dados, integrar processos, desenvolver automações, interpretar indicadores, melhorar continuamente, garantir qualidade, proteger a experiência e conectar operação e negócio.

A pesquisa da Deloitte sobre GBS mostra que as organizações estão priorizando GenAI, automação e analytics não apenas para reduzir custos, mas para melhorar eficiência, escalabilidade e experiência: cerca de 58% dos respondentes já haviam iniciado ou planejavam iniciar sua jornada de GenAI no levantamento de 2025 (Deloitte, 2025). A questão, portanto, não é CSC + IA. É que CSC precisamos construir quando a IA passa a executar parte do trabalho? Essa é uma pergunta de Operating Model.

Pode parecer contraditório, mas se a tecnologia reduz o trabalho transacional, por que o CSC precisaria de capacidades humanas mais sofisticadas? Porque a automação muda o tipo de trabalho. Quando atividades repetitivas são automatizadas, aumenta a importância de atividades que exigem julgamento, análise, resolução, desenho, relacionamento e decisão. A própria pesquisa da LACE Partners reforça essa mudança ao apontar a necessidade de intervenções estratégicas de aprendizagem para preparar as equipes de HR Shared Services à medida que a tecnologia assume tarefas rotineiras. A pergunta mais importante não é quantas pessoas a IA vai substituir? É que capacidades o CSC precisará desenvolver quando a IA assumir parte do trabalho transacional? Essa é uma pergunta de desenho organizacional.

Talvez o próximo modelo nem se chame CSC

A evolução dos Shared Services não está acontecendo apenas dentro de RH. A pesquisa global da Deloitte, realizada com líderes em mais de 30 países e apoiada por oito anos de dados e mais de 2.000 respondentes, mostra que organizações estão ampliando modelos de Shared Services para Global Business Services, combinando diferentes funções, capacidades digitais, analytics, automação e Global Capability Centers (Deloitte, 2025).

Esse movimento muda a pergunta de como podemos melhorar nosso CSC? para qual arquitetura de Service Delivery faz sentido para nossa organização? Em algumas empresas será um CSC; em outras, um GBS; em outras ainda, uma combinação de Shared Services, plataformas digitais, automação, centros de expertise e estruturas próximas ao negócio.

O futuro não significa necessariamente que todos os CSCs terão menos pessoas. Alguns terão. Outros terão estruturas semelhantes, mas capacidades muito diferentes. Alguns poderão incorporar novas atividades, outros poderão evoluir para modelos de GBS e outros ainda poderão se tornar plataformas digitais de Service Delivery. O ponto central não é o tamanho. É o desenho.

Um CSC preparado para o futuro precisa responder a perguntas diferentes: o que deve ser centralizado? O que deve ser automatizado? O que precisa permanecer humano? Onde o serviço precisa estar próximo do negócio? Que capacidades precisam ser desenvolvidas? Como vamos medir valor? Essas perguntas são mais estratégicas do que simplesmente estabelecer uma meta de redução de custo.

A perspectiva Ebony

O CSC nasceu para criar escala. Agora precisa criar capacidade.

Antes de reduzir a estrutura, é preciso entender que serviço o CSC deveria entregar. Antes de medir sucesso pelo custo, é preciso definir o valor que a operação precisa produzir. Antes de automatizar uma transação, é preciso perguntar se ela ainda deveria existir. Antes de escolher entre CSC, GBS ou uma plataforma digital, é preciso entender qual arquitetura de Service Delivery o negócio realmente precisa.

É essa mudança de perspectiva que transforma o CSC de um centro de custo em uma capacidade estratégica. O futuro do CSC de RH não será necessariamente um CSC menor. Será um CSC mais inteligente, mais integrado e mais capaz de criar valor. O desafio não é fazer o mesmo processo com menos pessoas. É redesenhar o processo para que o serviço entregue mais valor.

Referências

DELOITTE. 2025 Deloitte's Global Business Services Survey. Deloitte, 2025. Pesquisa realizada com líderes de mais de 30 países, com dados acumulados de mais de 2.000 respondentes ao longo de oito anos.
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DELOITTE. HR Shared Services. Deloitte. Discussão sobre a evolução de HR Operations de provedor transacional para gerador de valor empresarial e sobre a ampliação do escopo para além de Shared Services.
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GARTNER. How to Evolve HR Shared Services Metrics to Drive Strategic Value. Gartner, 4 jun. 2024.
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LACE PARTNERS. HR Shared Services Trends 2024 Report. LACE Partners, 2024. Pesquisa com líderes de HR Shared Services de 34 organizações globais.
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